domingo, 17 de março de 2013

Atualidades sobre João Pessoa

Leia:


http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1247559-guerra-entre-eua-e-al-qaeda-leva-terror-a-joao-pessoa.shtml

A DESSALINIZAÇÃO, SOLUÇÃO MILAGRE PARA A FALTA DE ÁGUA?



Toda vez que é discutida a falta de água em muitas regiões do mundo, o bom senso pergunta: com tantos oceanos, por que não transformar a água do mar em água potável em grande escala por meio da dessalinização? É uma solução interessante, mas não tão simples nem tão viável quanto parece.

Será a dessalinização da água do mar a resposta aos problemas de escassez de água no mundo? Muitos acham que sim, sendo esta uma opinião bastante difundida na opinião pública. Enquanto eu estava fazendo uma turnê dos estúdios de rádio britânicos para promover meu mais recente livro, "When the Rivers Run Dry" ("Quando os rios ficam secos", numa tradução livre), descobri que a pergunta que voltava com maior freqüência, formulada por telefone pelos ouvintes dos programas, era a seguinte: "Por que deveríamos sofrer com a falta de água quando estamos cercados pelo mar? Na certa, a dessalinização não seria a resposta?"
          
E trata-se de uma boa pergunta, principalmente se considerarmos que os custos da dessalinização vêm diminuindo rapidamente. Com freqüência ouvimos a advertência de que o século 21 irá testemunhar as primeiras guerras por água. Mas, ao contrário, este poderia se revelar como o século em que as nossas carências de água serão resolvidas para sempre se a extrairmos da mais abundante das fontes de água no planeta - os oceanos. Países que hoje sofrem desesperadamente com a falta de água poderiam em breve ser inundados por ela. Mas, assim como tantos outros Santos Graais tecnológicos, tais como a fusão nuclear, a dessalinização pode ser fadada a permanecer uma miragem torturante na linha do horizonte.
           
Existem duas tecnologias para remover o sal da água do mar e torná-la bebível. Destilar a água do mar, fervendo-a e recolhendo o vapor da água é um procedimento dos mais antigos. O fato de fervê-la retira a maior parte das impurezas da água, inclusive os sais, que são deixados para trás à medida que o vapor é liberado. Na antiguidade, os egípcios, os persas e os gregos já sabiam disso.
           
A Marinha Real britânica construiu alambiques de destilação dentro dos seus navios de guerra. Mas a tecnologia da destilação, tal como a conhecemos hoje foi desenvolvida inicialmente pela Marinha americana, de modo a não faltar água nas suas operações em ilhas remotas do oceano Pacífico durante a Segunda Guerra mundial. Mais tarde, nos anos 50, a destilação em grande escala difundiu-se rapidamente nos Estados áridos do Golfo, os quais dispõem de petróleo suficiente para produzir a energia necessária para isso.
           
Nos típicos sistemas modernos de destilação, a água salgada é aquecida ao passar dentro de tubos no interior de uma câmara que contém sobras de vapor provenientes de uma usina de energia - uma espécie de radiador ao contrário. A água salgada quente entra então numa câmara despressurizada que reduz a temperatura na qual a água está fervendo. Então, esta "faz de tudo" para evaporar. Este princípio é chamado de eletrolise.
           
A segunda tecnologia de dessalinização, a da osmose inversa, foi se tornando cada vez mais popular a partir dos anos 70. Na sua essência, trata-se de um sistema de filtragem. A água bombeada é projetada por meio de uma forte pressão contra uma membrana que retém as moléculas maiores de sal e deixa passar as moléculas menores de água limpa. Contudo, os filtros são eficientes apenas em parte, e a água precisa ser pressurizada e passar pelos filtros várias vezes até conseguir ficar limpa.
           
Ambas as tecnologias requerem grandes quantidades de energia. Até recentemente, custavam vários dólares para produzir um único metro cúbico (1.000 litros) de água sem sal - cerca de 100 vezes mais do que o custo do fornecimento convencional de água. Mas a fabricação de filtros melhores está permitindo cortar os custos da produção de uma água potável aceitável. Com isso, enquanto o esgotamento das fontes vem aumentando os preços do abastecimento convencional em água fresca, a dessalinização tornou-se uma alternativa cada vez mais atraente.
           
Hoje, a capacidade global de dessalinização aproxima-se de 10 quilômetros cúbicos por ano - ou seja, cerca de 3% do abastecimento global em água corrente doméstica. Os dois terços desta capacidade são dedicados ao processamento da água do mar, e o restante à limpeza de águas salobras subterrâneas. Mas a água para consumo doméstico é objeto de uma demanda menor na maioria dos países (neste caso, a Grã-Bretanha faz figura de exceção). Os dois terços da água disponível em todo o mundo são utilizados para irrigar plantações. Com isso, a água dessalinizada responde por apenas um décimo de 1% do total da água utilizada.
           
Os quatro quintos da capacidade mundial de dessalinização ainda são produzidos por processos de destilação, em usinas concentradas, na sua maioria, nos países do Golfo. A capital da Arábia Saudita, Riad, onde praticamente nunca chove e onde não existem rios nem lagos de superfície, responde sozinha por um décimo da produção mundial de água dessalinizada. Em 2004, os sauditas anunciaram que planejavam construir seis novos centros de produção, a um custo total de US$ 5 bilhões (equivalente hoje a R$ 10,29 bilhões).
           
Mas a tecnologia da dessalinização está se disseminando rapidamente em países onde os rios estão encolhendo e onde a demanda está cada vez mais elevada. As ilhas de veraneio onde os turistas esgotaram as reservas locais tornaram-se as principais interessadas nesta alternativa. Hoje, Malta obtém dois terços da sua água potável da dessalinização. Na sua maioria, as ilhas gregas, como Mykonos, por exemplo, vêm dessalinizando há muitos anos, o que é também o caso das ilhas Cayman, de Antígua e das Ilhas Virgens no Caribe. E Chipre bombeou de tal forma suas reservas subterrâneas de água potável que a água do mar acabou invadindo o subsolo através dos poros abertos dentro da camada rochosa - o que fez com que o país, agora, seja obrigado a dessalinizar também sua água subterrânea.
           
Nos últimos cinco anos, certas cidades continentais situadas em zonas áridas também abraçaram a tecnologia. Tampa Bay, na Flórida, e Santa Cruz, na Califórnia, foram outras que mergulharam de cabeça, enquanto outras usinas de osmose reversa estão sendo planejadas para Houston (Texas) e Cidade do Cabo (África do Sul). Em Perth (Austrália), desde os anos 70, a seca cortou em dois terços o fluxo da água que alimentava as barragens que abastecem a cidade; com isso, para continuar a abastecer as torneiras, a cidade está construindo uma usina de dessalinização, a um custo de US$ 278 milhões (R$ 572,1 milhões).
           
Na Espanha, o governo Zapatero, eleito em 2004, abandonou os planos do seu predecessor que visavam a abastecer os campos ressecados e as piscinas vazias da região sul, bombeando água do norte, mais irrigado. Em vez disso, ele decidiu construir 20 usinas de osmose reversa ao longo das Costas (que formam o litoral sul da Espanha), as quais deverão corresponder a um pouco mais de 1% das necessidades totais da Espanha em água.

Redução dos custos da dessalinização 

A água do mar dessalinizada a mais barata encontra-se em Israel, onde a maior usina de osmose reversa do mundo foi construída na orla mediterrânea, em Ashkelon. Ela produz 270.000 metros cúbicos de água por dia. A política de Israel em relação à água é notoriamente pouco transparente, mas o governo garante ter condições de suprir água a cerca de US$ 0,50 (R$ 1,03) por metro cúbico. Isso representa cerca de um terço do custo de produção na Arábia Saudita, e um sexto do custo típico da dessalinização em vigor 20 anos atrás.

De modo mais pertinente ainda para os israelenses, este custo sustenta a comparação com os US$ 0,30 (R$ 0,62) que custa bombear água potável do mar da Galiléia até cidades costeiras tais como Tel-Aviv, e os US$ 2 (R$ 4,12) por metro cúbico que devem ser desembolsados para comprar e transportar água da Turquia. Um plano nacional que foi aprovado em meados de 2004 aumentará a produção de água do mar dessalinizada de maneira a atender a cerca da metade da demanda atual do país em água, até o final desta década.
           
Esta queda considerável dos custos está incentivando cidades que enfrentam circunstâncias menos extremas, e climas mais frios e mais úmidos, a aderirem à revolução da osmose reversa. Em 2004, a China anunciou o início da construção de uma usina gigante de dessalinização para abastecer Tianjin, a terceira maior cidade do país, cujos 10 milhões de habitantes enfrentam uma falta endêmica de água com o esgotamento dos lençóis subterrâneos e a seca do rio Amarelo. Ela produzirá 100.000 metros cúbicos de água do mar dessalinizada por dia - uma produção importante, mas que representa apenas uma fração das necessidades da cidade em água.
           
De forma mais surpreendente, em 2004 a companhia inglesa Thames Water (a terceira maior empresa de gestão de recursos hídricos do mundo) anunciou sua intenção de construir uma usina de osmose reversa a um custo de 300 milhões de euros (R$ 786,16 milhões), que bombeará água no estuário do rio Tamisa, a leste de Londres. A mistura de água do mar com água doce que predomina no estuário significa que ela será menos salgada, e, portanto, mais barata de processar que a água do mar do Norte.
           
A usina seria mantida em reserva para períodos de seca, quando ela teria condições de atender às necessidades domésticas de quase 1 milhão de londrinos. Até agora, o projeto tem sido vetado pelas autoridades do planejamento de Londres, enquanto a Agência do Meio-Ambiente acredita que existem formas mais adequadas de garantir o suprimento em água da capital, tais como consertar os vazamentos existentes nas principais canalizações de água. Mas os londrinos podem eventualmente querer beber água do mar dessalinizada.
           
O boom da dessalinização está começando a deixar os ambientalistas alarmados. Um dos problemas é o que fazer com os resíduos de água salobra, os quais podem corresponder à metade ou mais do volume total da água processada. A maioria das usinas, de maneira bastante natural, os despeja de volta no mar. Mas esta água salgada usada também contém os produtos da corrosão que foi gerada durante o processo de dessalinização, assim como as substâncias químicas que foram adicionadas para reduzir tanto a corrosão quanto o desenvolvimento de tártaro nas usinas.
           
Tão preocupante quanto, é preciso levar em conta a enorme demanda em energia da dessalinização, pois uma típica usina moderna de osmose reversa consome 6 quilowatts/hora de eletricidade para cada metro cúbico de água que ela produz. A maior parte desta energia, inevitavelmente, provém da queima de carvão, de petróleo ou de outros combustíveis fósseis. Portanto, enquanto a dessalinização poderia, de modo concebível, se tornar uma fonte viável de água potável em regiões costeiras, isso se daria ao custo de um aumento das emissões de carbono na atmosfera.
           
Não raro, a água dessalinizada também gera custos maiores do que o normal para ser distribuída. Ela é produzida, inevitavelmente, no nível do mar. Embora uma grande parte da população mundial viva em regiões costeiras, sempre será preciso bombear a água para outros lugares, o que custa dinheiro e energia. A maioria dos sistemas de fornecimento de água é projetada para captar a água o mais alto possível e fornecê-la usando a gravidade. Esta não é uma opção adequada para a água dessalinizada.

Tendências futuras 
Enquanto a tecnologia da destilação se revela bastante madura, com um potencial reduzido para novos avanços importantes, a tecnologia da osmose reversa ainda apresenta a perspectiva de ser beneficiada por verdadeiros aprimoramentos, os quais poderiam reverter as desvantagens causadas tanto pelo seu preço quanto pela poluição que ela gera.
           
As primeiras membranas de náilon e de acetato de celulose ficavam facilmente entupidas. Isso reduzia sua eficiência e exigia custosos pré-tratamentos da água por meio de substâncias químicas que permaneciam no desaguamento da usina. Mas já surgiu uma nova geração de membranas. Compósitas, resistentes, porém finas, feitas de filmes de poliamida, elas podem remover mais de três quartos do sal numa única operação, e ainda duram muito mais do que as antigas. A água ainda precisa passar através do filtro várias vezes, mais a meta de uma única filtragem pode estar finalmente prestes a se concretizar.
           
Uma outra inovação desejável seria encontrar maneiras de capturar e reciclar a energia utilizada no processo. Uma das idéias em estudo consiste em instalar turbinas dentro da câmara onde a água pressurizada é precipitada sobre o filtro. Essas turbinas, giradas pela água turbulenta enquanto esta se despressuriza, ajudariam a alimentar em energia o processo de pressurização do próximo volume de água a passar através do filtro.
           
Aonde nos leva tudo isso? É difícil imaginar que a dessalinização consiga penetrar no mercado agrícola, que utiliza a maior parte da água do planeta. Isso porque os custos são de uma ordem de grandeza muito elevada demais. O que se pode prever para um futuro próximo é que importar alimentos sairá bem mais barato do que submeter-se à complicação de dessalinizar água do mar para irrigar plantações.
           
Um testemunho da futilidade de tentar irrigar culturas com água dessalinizada pode ser conferido nos arredores de Yuma, no Arizona, no rio Colorado, a pouca distância, rio acima, da fronteira com o México. Ali, uma usina gigante de dessalinização foi construída pelo governo americano duas décadas atrás, a um custo de US$ 280 milhões (equivalente hoje a R$ 576,21 milhões), como parte do cumprimento da sua obrigação, firmada num tratado, de fornecer água potável para o México. A idéia era dessalinizar a água de drenagem salgada retirada de campos locais irrigados e transportá-la no leito seco do rio Colorado, rio abaixo. Mas revelou-se mais barato abandonar esses campos e permitir que certa quantidade de água permaneça no leito do rio. A usina de Yuma nunca foi utilizada.
           
Muitos consideram a dessalinização como uma solução de alta tecnologia de custos proibitivos, não é adequada para resolver um problema global de abastecimento em água causado, principalmente, pelo desperdício. Para eles, no melhor dos casos ela pode representar apenas uma das soluções possíveis para resolver problemas pontuais de abastecimento, relativos a uma demanda específica.
           
Mas, para muitas regiões costeiras - e até mesmo em certas áreas no interior de um país onde as circunstâncias são excepcionais, tais como a Cisjordânia -, ela pode vir a ser a tecnologia a mais indicada, tanto para uso doméstico quanto industrial. Caso a Califórnia não puder mais contar com a água barata do rio Colorado, e se os rios em volta do Mediterrâneo seguirem seu processo de seca, e eventualmente se as secas se tornarem endêmicas no sul da Inglaterra - a dessalinização poderia proporcionar uma forma de manter a água jorrando.
Rushanara Ali,
Prospect Magazine, 09/05/2006.

sábado, 16 de março de 2013

ESPAÇO GEO-HISTÓRICO E CULTURAL DA PARAÍBA



Em 1500, a América já estava dividida pelo Tratado de Tordesilhas (370 léguas a oeste de Cabo Verde). Em 1534 o Brasil foi dividido em 15 lotes (Capitanias Hereditárias). Os donatários eram os homens que governariam as capitanias. A Capitania de Itamaracá (hoje Paraíba) foi entregue a Pero Lopes de Souza (da foz do rio Igarassu/PE até a Bahia da Traição - trinta léguas de frente).
Viviam dois grupos de índios: no litoral, o grupo dos Tupi (Tabajaras e Potiguares); no interior, o grupo dos Tapuias (Cariris)

ESTUDO GEO-HISTÓRICO E ECONÔMICO DO RIO GRANDE DO NORTE


As tribos indígenas que habitavam o Rio Grande do Norte

           Quando os europeus chegaram o estado era habitado pelos Tupi (tribos dos Potiguar), que ocupavam parte do litoral da Paraíba e o litoral do Rio Grande do Norte (de Baía Formosa até Touros. No interior predominava os Tapuio (Cariri) divididos em Panatis, Caicó, Peba, Tarairiú (Seridó). Da chapada do Apodi à Serra de Patu, viviam os Janduis, Pataxó, Pajeú, Paiaku e Moxoró. Na serra predominava as tribos Icó, Panatis e Pacajus.
                Esses índios resistiam a invasão do seu território. Essa luta é organizada pela Confederação dos Cariris (1670). A reação à resistência indígena é chamada pelo colonizador de Guerra dos Bárbaros. Os Cariris são dizimados por tropas vindas da Bahia, de Pernambuco e pelos Bandeirantes (Domingos Jorge Velho)
  Terminada a Guerra dos Bárbaros, a capitania estava arrasada e a população indígena reduzidíssima. Os sobreviventes se miscigenaram, aculturaram com os brancos e os negros.       





segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A PRODUÇÃO DA ESCALA GEOGRÁFICA - 1ª série (Millenium)

O britânico Neil Smith é um dos geógrafos que vêm elaborando uma teoria a respeito da escala geográfica. Segundo sua teoria, a escala geográfica é aquela que demarca as fronteiras das disputas sociais e dos espaços controlados ou contestados por grupos sociais. Cabe a Geografia a compreensão das articulações entre as escalas produzidas socialmente, identificando os grupos que exercem o controle e a mobilidade entre diferentes escalas.
O contraste entre os ricos e os pobres é enorme nas cidades brasileiras, mas o processo de exclusão que resultou dessa desigualdade social está provocando reações nos jovens que vivem nas áreas mais carentes.
Um dos tipos de reação é um movimento chamado de manguebeat, originado no Recife (PE). Disputando um lugar de maior visibilidade, esse movimento cultural tem demonstrado força capaz de produzir escalas geográficas, conectadas entre si.

Vejamos quais são elas.

Recife cresceu desordenadamente, à custa do aterramento indiscriminado dos manguezais da planície costeira em que a cidade foi fundada. As áreas de mangue que resistiram à destruição foram em grande parte ocupadas por barracos palafitas, formando imensas favelas.
Se os manguezais nunca haviam sido respeitados imagine o preconceito que se formou quando estas áreas se transformaram em local de moradia da população de baixa renda.
Porém, por meio da música de protesto do manguebeat, os jovens dessas áreas começaram a reverter a imagem negativa dos seus bairros, valorizando sua maneira original de olhar o mundo e de se apresentar a ele.
Segundo os mangueboys e as manguegirls, viver no mangue não é para qualquer um.
Somente os “caranguejos com cérebros”, conforme eles próprios se denominam, são capazes de ficar “conectados” no mundo, com a antena parabólica enterrada na lama.
Nesse nível mais elementar, o próprio corpo e a maneira de vestir e de falar desses jovens demarcam uma fronteira espacial da diferença entre eles e os outros. Ao delimitar suas diferenças em relação ao restante da cidade, os moradores do mangue estão gerando outro nível escalar, que é o de uma comunidade que agrupa indivíduos, inclusive de bairros distantes, ligados por características políticas, econômicas ou culturais comuns.
No caso do movimento cultural manguebeat, os jovens do Recife criaram a sua própria escala do corpo, da comunidade, do espaço urbano e da nação. Ao chamara atenção de outros jovens, o manguebeat começa a fazer parte da vida cultural da cidade, resistindo ao processo de exclusão social.




domingo, 14 de outubro de 2012

Texto: Presentes recíprocos

Cristovam Buarque  -  Domingo, 14 de Outubro de 2012 22h11
                            (Cristovam Buarque é senador pelo PDT de Brasília, ex-ministro da Educação e ex-reitor da Universidade de Brasíli)


Os historiadores terão dificuldades para explicar como foi possível a sociedade brasileira desprezar tanto suas crianças.

Como foi possível a sexta economia do mundo não ser capaz de cuidar decente e competentemente de suas crianças, deixando milhões delas fora da pré-escola, sabendo que centenas de milhares de mães são obrigadas a deixar seus filhos na primeira infância sob os cuidados de outros filhos, às vezes com 10 anos de idade, retirados da escola para este trabalho.

Por que esta rica sociedade ainda tem fora da escola 3,5 milhões dos seus 50 milhões em idade escolar? E aqueles matriculados que, em sua grande maioria não frequentam, não assistem, não permanecem na escola e não aprendem?

Por que apenas 40% terminam o ensino médio, e em cursos sem qualificação? Como foi possível tratar tão desigual a infância conforme a renda dos pais?

E como explicar, que em pleno século XXI, centenas de milhares de meninos e meninas fiquem nas ruas do Brasil e cerca de 100 mil submetidos à exploração sexual?

E como será possível explicar daqui a 20 anos, que nos últimos 20, pelo menos 10 mil crianças tenham sido assassinadas, uma média de 14 por dia?

Os historiadores ficarão perplexos quando descobrirem que esse quadro persiste, apesar de o Brasil comemorar o Dia da Criança, em 12 de outubro, desde 1924.

Alguns historiadores dirão que o maltrato e o abandono são lendas criadas sobre o passado.

Outros darão explicações culturais: o imaginário egoísta e imprevidente da população brasileira, com alta preferência sobre o consumo material no presente, um povo que não respeita a atividade intelectual nem considera riqueza o acúmulo de conhecimento.

Outros se limitarão a dizer que a sociedade dividida por uma histórica apartação social cuidava dos poucos filhos da minoria rica, deixando de lado as massas de crianças, filhas de pobres.

Os historiadores terão dificuldades em explicar a indecência do abandono e estupidez, o sacrifício do maior potencial que uma sociedade dispõe: seu futuro, sob a forma de sua infância.

Mas uma coisa os historiadores terão de reconhecer: o quadro de violência, ineficiência, corrupção, desigualdade e atraso civilizatório em 2012 decorrem da forma como foram tratadas as crianças de antes.

O Brasil de hoje é o país construído pelas crianças de ontem; e o Brasil de amanhã tem a cara da maneira como tratamos nossas crianças de hoje.

Se quisermos um bom futuro para o Brasil, é preciso cuidar das crianças do presente, de uma maneira diferente daquela do passado. Como diz a ex-senadora Heloisa Helena: “O Brasil precisa adotar uma geração de suas crianças, do pré-natal ao final do ensino médio de qualidade para todos”.

Essas crianças adotadas hoje adotarão o Brasil amanhã. O futuro do Brasil seria os cuidados delas para com o país, uma retribuição espontânea do que receberam no passado.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

A questão hidrelétrica no Brasil

Um país que precisa de mais energia elétrica para crescer pode abrir mão da água como sua principal fonte de geração? (por Fabiane StefanoFonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL)

Em 22 de agosto de 1889, a água do rio Paraibuna girou pela primeira vez uma das duas turbinas importadas dos Estados Unidos compradas para a usina de Marmelos, na cidade mineira de Juiz de Fora. Naquele dia, eram gerados os primeiros watts-hora (Wh) de energia hidrelétrica da América Latina. A usina foi construída pelo industrial mineiro Bernardo Mascarenhas, que, ao visitar a Exposição Universal de 1878, em Paris, decidiu construir uma tecelagem que seria abastecida com energia de origem hidráulica. Meses depois de inaugurada, a primeira hidrelétrica brasileira passou a fornecer eletricidade para manter acesas 180 lâmpadas da iluminação pública de Juiz de Fora, antes alimentada a gás.

Dos primeiros 250 quilowatts de potência na usina Marmelos aos atuais 84.736 megawatts (MW) de capacidade hidrelétrica instalada no Brasil passaram-se mais de 120 anos e, apesar dos avanços tecnológicos e do tamanho das novas usinas, gerar eletricidade da água continua sendo basicamente igual: a força contida na correnteza dos rios movimenta uma turbina acoplada a um gerador, que transforma energia mecânica em elétrica.

Mas nunca na história deste país as hidrelétricas causaram tanta polêmica como agora. O centro da atual discussão é a construção da usina de Belo Monte, no Pará, a ser erguida às margens do rio Xingu. A obra, cujo preço é estimado em 32 bilhões de reais, deverá ser a terceira maior hidrelétrica do mundo – atrás apenas das de Três Gargantas, na China, e Itaipu, no Brasil – e criou dois times que lutam em campos opostos. No grupo dos especialistas, dos analistas econômicos e do próprio governo, apenas grandes hidrelétricas serão capazes de fornecer energia limpa e barata em escala suficiente para satisfazer a demanda crescente por luz elétrica no país. No time dos ecologistas e dos ativistas sociais, os ganhos são bem menores em comparação ao rastro de destruição que elas deixam para o meio ambiente, para as populações indígenas e para as comunidades ribeirinhas. Entre os dois pontos de vista, há um fato e um dilema: o Brasil é o país com o maior potencial hidrelétrico do mundo, com mais de 260 mil megawatts já catalogados. Apenas um terço disso é explorado. A riqueza dos rios brasileiros para geração de eletricidade é uma bênção da natureza ou uma maldição, que nos acompanhará por todo o século 21?

Poucos países no mundo desfrutam de um sistema hídrico tão generoso quanto o nosso. Os livros escolares apontam que 55.455 quilômetros quadrados (do total de 8.514.876 quilômetros quadrados que compõem a área do território brasileiro) estão cobertos por água, distribuídos em rios, lagos e riachos. É a abundância de rios e quedas-d’água que produz o enorme potencial de energia hidráulica. Hoje, estão em operação mais de 180 grandes usinas, responsáveis por quase 70% da produção nacional de energia elétrica. Isso também faz do país o segundo maior produtor de energia hidrelétrica no mundo, com 12% da geração mundial, perdendo apenas da China. Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão ligado ao Ministério de Minas e Energia, outros 73 projetos hidrelétricos estão em construção, incluindo as pequenas centrais. E mais 24 estão programados até 2020. A lista de projetos deve atender à crescente demanda. Estima-se que até aquele ano o consumo no Brasil deva atingir 730 mil gigawatts-hora (GWh) – 52% a mais do que consumimos em 2011.

A imensa necessidade de energia é explicada pela expectativa de fortalecimento da economia brasileira. Nos últimos cinco anos, o país cresceu em média 4% ao ano, o que nos posicionou como a sexta maior economia do planeta. Um dos aspectos mais visíveis desse bom momento foi a ascensão de mais de 30 milhões de brasileiros à chamada nova classe média. Os consumidores emergentes não hesitam em comprar televisores, geladeiras, freezers, computadores, celulares e toda a sorte de eletrodomésticos – e, com isso, aumentam o consumo de luz.

Até 2020, o Brasil terá de ampliar a capacidade de geração dos atuais 115 mil megawatts para 171 mil megawatts. Para cumprir essa meta, o governo federal aposta na expansão de diferentes matrizes de produção. A geração de energia nuclear, que, no passado, era o alvo preferencial dos ecologistas, deverá crescer 70% com a entrada em operação da usina Angra 3, prevista para 2016. Os investimentos também serão generosos na promissora alternativa eólica. Mas, mesmo com essa diversificação e o aumento de capacidade de outras fontes, mais da metade da expansão energética se dará por meio das grandes hidrelétricas. Serão acrescidos ao sistema mais 30 mil megawatts – potência suficiente para abastecer as regiões Norte e Nordeste juntas. Para pânico dos ambientalistas, quase toda a nova capacidade instalada deverá ocorrer na região amazônica.